OPINIÃO: Carnaval, Carregadores Elétricos e Popularidade: quando a pauta não encontra o povo

O Carnaval é, por essência, a festa de Momo. Tempo de sorriso largo, aperto de mão fácil, abraço demorado e fotografia ao lado do povo. É também, historicamente, o período em que muitos políticos descem dos gabinetes, vestem roupas leves, misturam-se à multidão e tentam, ainda que por alguns dias, reduzir a distância entre o mandato e o eleitor.
Em Apodi, a festa mostrou mais uma vez sua força cultural e econômica. Mas, além da folia, serviu como termômetro político. O deputado estadual Neilton Diógenes, que enfrenta sinais de impopularidade no município, circulou entre os foliões, buscou aproximação com a população e tentou capitalizar a popularidade do prefeito Sabino Neto. Outdoors espalhados pela cidade destacaram ações atribuídas ao seu mandato.
Prestar contas é obrigação de todo agente público. O debate, contudo, não está na divulgação, mas no conteúdo. Entre as ações apresentadas estão reformas de escolas, cirurgias eletivas, implantação de posto avançado do Corpo de Bombeiros, ampliação do SAMU e entrega de ambulâncias — medidas vinculadas a políticas estruturantes do Governo do Estado, sob a gestão da governadora Fátima Bezerra, e do Governo Federal, liderado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
São iniciativas importantes e essenciais. Mas são, sobretudo, deveres institucionais do Estado brasileiro, que independem da existência de um padrinho político local.
Paralelamente ao esforço de presença física no Carnaval, o parlamentar protocolou na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte um Projeto de Lei que garante aos condôminos o direito de instalar carregadores para veículos elétricos em suas vagas de garagem, desde que respeitadas as normas técnicas e de segurança. A proposta foi apresentada como medida de modernização, incentivo à sustentabilidade e adequação à nova realidade da mobilidade elétrica.
No papel, trata-se de uma pauta alinhada ao debate contemporâneo sobre inovação e transição energética. Na prática, entretanto, a repercussão nas redes sociais foi majoritariamente negativa. Internautas questionaram a prioridade do projeto diante das demandas urgentes da população, especialmente nas áreas de saúde, educação e segurança pública. Para parte do eleitorado, discutir carregadores elétricos em condomínios parece distante da realidade de quem enfrenta dificuldades básicas no dia a dia.
É aqui que política e percepção se encontram — e, por vezes, se chocam.
Apodi, segunda maior cidade do Oeste potiguar, atrás apenas de Mossoró, precisa de mais do que o básico institucional. Precisa de articulação para investimentos estruturantes, fortalecimento da economia local, incentivo ao setor produtivo, geração de emprego e renda e projetos de médio e longo prazo que consolidem seu protagonismo regional.
O Carnaval mostrou um deputado presente nas ruas. O projeto dos carregadores mostrou um parlamentar atento às tendências globais. Mas presença festiva e pauta moderna não significam, automaticamente, conexão com as prioridades imediatas da população.
Em política, popularidade não se constrói apenas com outdoors nem se consolida com fotos em meio à multidão. Tampouco se firma apenas com projetos que dialogam com o futuro, mas que não encontram eco no presente social da maioria.
Constrói-se com resultados concretos, com liderança reconhecida e com capacidade de transformar demandas históricas em conquistas palpáveis.
Se o Carnaval foi um ensaio e as redes sociais um alerta, as urnas de 2026 serão o julgamento definitivo. E nelas, diferentemente da folia, não há espaço para fantasia — apenas para memória e avaliação.






Reflexão oportuna!