Apodi

José Wilson Pereira, o Galego Cambista – vida e morte de um homem trabalhador

Quem era o Cambista Wilson Pereira?

Na tarde de 2 de maio de 2025, o centro de Apodi parou. O sol brilhava como em qualquer outro dia comum, mas a rotina foi interrompida por sons que cortaram o ar como navalhas: tiros. Ali, nas proximidades do Supermercado O Sertanejo, tombava José Wilson Pereira — o Galego Cambista.

Tinha 61 anos. Era um homem simples, quase invisível no corre-corre da cidade, desses que passam pela vida sem alarde, mas com dignidade. Vivia com a irmã na Rua Antônio Lopes Filho. Nunca casou, não teve filhos, mas tinha amigos. Muitos. Era respeitado pelo que era: trabalhador, honesto, pacato.

Veio do Sítio Barro Vermelho em busca de uma vida melhor. Em Apodi, encontrou no jogo do bicho uma forma de sobreviver. Atividade ilegal, sim, mas também culturalmente enraizada, tolerada pelo tempo e pela necessidade. Com sua “banquinha” montada no centro da cidade, Galego atendia a uma clientela fiel, ganhando centavos por aposta. Era pouco, mas era o bastante para manter o essencial: sua independência, sua rotina, sua paz.

A cidade anda diferente. Há algum tempo, cochichos percorrem as ruas, alertas circulam nos becos e nas esquinas: “Os homens da facção não querem mais o jogo.” Os cambistas são alvos. Muitos se calaram. Galego não. Talvez por ingenuidade. Talvez por fé. Ou por pura coragem. Não sabemos. Mas ele continuou.

Às 15h30 daquela tarde, dois homens armados, chegaram de moto. Agiram rápido. Os tiros foram muitos. A fuga, instantânea. O corpo ficou na calçada — imóvel, silencioso, como um protesto mudo contra a selvageria.

Não houve gritos. Só espanto. Só tristeza. Só medo.

A Polícia Militar isolou a área. O ITEP levou o corpo. A Polícia Civil iniciou a investigação. Nenhuma prisão. Nenhuma resposta. Apenas hipóteses e a certeza de que a violência venceu mais uma vez.

O velório foi simples, como foi sua vida. Amigos, vizinhos e familiares se reuniram na pequena casa onde vivia. Ninguém queria falar sobre o crime. Preferiram recordar o homem: honesto, educado, trabalhador. “Nunca perturbou ninguém. Só queria viver.”

A calçada ainda guarda as marcas. Mas os moradores guardam algo mais profundo: a lembrança e o medo. Galego não era bandido, não era ameaça, não devia nada à Justiça. Só queria seguir com seu ganha-pão. Mas, neste sertão cada vez mais tomado pelo crime, até a honestidade virou risco.

O silêncio das autoridades é mais ensurdecedor que os tiros. E a cidade segue: com ruas mais vazias, olhares mais desconfiados e um sentimento amargo de que a violência deixou de ser exceção para virar regra.

Galego Cambista se foi. Mas seu nome ficou. Como símbolo. Como alerta. Como dor.

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