Cultura

Livro sobre impactos do feminicídio nas famílias é lançado no TJRN durante programação da Semana da Mulher

O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte realizou, nesta terça-feira (10/3), o lançamento do livro “Eu vi a vida sair dos olhos da minha mãe”, da autora Mayara de Fátima Martins de Souza, que é servidora do tribunal potiguar, na área especializada em serviço social. O evento, que faz parte da programação da Semana da Mulher 2026, aconteceu no hall de entrada do prédio sede do TJRN.

“Lançar o livro aqui no Tribunal de Justiça, no Poder Judiciário do Rio Grande do Norte, pode impactar na forma como as pessoas enxergam essa realidade e estimular reflexões sobre o papel de cada um, seja dentro das instituições, seja no âmbito das suas casas e das suas vidas. Esse livro é também uma denúncia de uma realidade no país e meu desejo é que ele ecoe nas pessoas e nas instituições públicas”, disse Mayara de Souza.

A vice-presidente do TJRN, desembargadora Berenice Capuxú, destacou a relevância de iniciativas que ampliem o debate sobre a violência contra a mulher. De acordo com ela, é fundamental que a sociedade compreenda a dimensão do problema e os impactos causados nas famílias das vítimas. “A maior importância é que todos possam entender a dinâmica da situação da mulher. Muitas vezes elas sofrem, chegam a ser mortas e toda uma família fica em luto, sem o afeto e o amor de mãe. É um processo muito doloroso para todos que ficam”, afirmou.

No livro, a escritora também chama a atenção para os dados relacionados à violência contra a mulher no país e para os efeitos diretos nas famílias das vítimas. “Se 1.568 mulheres foram assassinadas em 2025, mais de três mil crianças e adolescentes tiveram suas mães assassinadas. Essas pessoas precisam ser identificadas pela rede de proteção para que as políticas públicas consigam atuar. O feminicídio não se encerra com o assassinato das mulheres. Há um impacto enorme em todas as estruturas familiares, na vida das crianças e adolescentes que ficam, das mulheres adultas que também perdem suas mães, e dos familiares que passam a assumir o cuidado dessas crianças”, afirmou.

A desembargadora Martha Danyelle também ressaltou a importância de atividades institucionais que promovam reflexão sobre o tema. “É muito importante ter uma visão a partir do olhar de quem estuda o tema. Posso dizer que saio instruída daqui. Eventos como esse nos fazem refletir sobre a importância do respeito em nossa sociedade, o respeito à mulher e à vida da mulher”, disse.

Motivação

Fruto de uma tese de doutorado, o livro “Eu vi a vida sair dos olhos da minha mãe” foi escrito a partir da pesquisa com familiares e filhos de mulheres vítimas do feminicídio, e com profissionais da rede de proteção a crianças e adolescentes, incluindo o TJRN, Conselho Tutelar, Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), bem como serviços especializados de atenção à vítima de violência. Na obra, a autora parte do questionamento: quando uma mulher é assassinada e quando o pai é o assassino, quem fica responsável por essas crianças, como essa rede de proteção diante das demandas dessa família?.

“Até chegar no feminicídio, muitas vezes essa criança já vivenciou o que antecede na violência doméstica, na violência familiar. Então muitas crianças assistem seus pais assassinarem as suas mães. Não é atoa que o livro se intitula “Eu vi a vida sair dos olhos da minha mãe” e essa é uma fala de um jovem potiguar que quando criança viu a sua mãe ser assassinada pelo pai, após a sua mãe cobrar uma pensão no sistema de Justiça”, explica Mayara .

A escritora destaca que a defesa na pesquisa de doutorado é que o feminicídio não seja mais um causador de outras violações de direitos para essas crianças que já têm que lidar com o fato de terem perdido a mãe e também perderem o pai, já que ele perde a guarda familiar dessa criança.

“É necessário com isso que toda essa rede de atenção como o sistema de Justiça, o Ministério Público, o SUS, e as políticas de educação e cultura, precisa estar atenta para ver qual a necessidade dessa criança e do adolescente”, evidenciou.

Livro como denúncia da realidade

Segundo Mayara, é esperado que a leitura do livro toque as pessoas num lugar de indignação, de inconformismo com a cultura e com o modelo civilizatório que rege no país atualmente. “Eu espero que ao ler e ao ser tocada por cada palavra, por cada reflexão, seja das pessoas entrevistadas ou das reflexões desenvolvidas a partir dela, que esse livro funcione como uma denúncia dessa realidade. Que as pessoas se somem no enfrentamento à violência contra as mulheres, que se somem no enfrentamento à violência contra crianças e adolescentes também, e que esse contexto de feminicídio em que assola o nosso país hoje, ele seja reconhecido como um problema coletivo”, afirmou a autora.

Ainda de acordo com a assistente social, o livro surge como uma denúncia. “Eu espero que ele chegue nas pessoas, não é um livro para leitura apenas do campo profissional, é um livro que eu desejo que atravesse as pessoas nas suas vidas, que mulheres em situação de violência possam ler esses livros. E que ele seja de algum modo um apoio, um sopro para que elas possam romper com essa situação de violência, que filhas e filhos de mulheres vítimas de violência encontrem nele também um alento ao ler outras pessoas e a construir outros caminhos”.

No livro estão presentes sugestões de políticas públicas para enfrentar esse quadro minimamente e para ofertar proteção para essas crianças, adolescentes e famílias. “A gente precisa criar um sistema nacional de orfandade que mapeia a orfandade no nosso país para que ela deixe de ser tratada como um problema privado. O problema da orfandade não é das famílias, como o país fez historicamente, a orfandade é um problema coletivo, os filhos das mulheres são também filhos do Estado, não no sentido de eles serem tutelados da responsabilidade, mas que eles sejam protegidos pelo Estado e que eles sejam protegidos pela comunidade”, salientou.

Sucesso de vendas

A primeira edição da obra já está esgotada. “Essa primeira leva não está mais disponível para venda, mas já estamos produzindo uma segunda edição, que deve estar disponível no início de abril na loja online do Serviço Social para Concursos, que realiza a entrega para todo o Brasil”, explicou.

Quem quiser adquirir o livro pode se cadastrar na lista de espera pelo link: https://loja.ssparaconcursos.com.br/produtos/livro-orfandade-por-feminicidio/ . A previsão é que a nova tiragem esteja disponível no mês de abril.

Sobre a autora

Natural de João Pessoa (PB), Mayara de Fátima Martins de Souza é servidora analista judiciário, na área especializada em serviço social, com atuação no Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário (GMF) do TJRN, e atualmente está cedida para a Rede de Proteção aos órfãos do Feminicídio do Distrito Federal.

Além disso, possui doutorado em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), e é mestra e graduada em Serviço Social pela Universidade Federal da Paraíba. Considerando-se uma ativista feminista, Mayara de Fátima também desenvolve pesquisas nas área das relações patriarcais de gênero, proteção social, direitos das mulheres e de crianças e adolescentes, com experiência na gestão de políticas públicas, e integra o Projeto Liberdade, Igualdade e Sororidade – Projeto LIS.

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